Viola de Nóis Produções 10 anos – Parte V

Viola de Nóis Produções 10 anos – Parte V

Da roça a rota da Tocha Olímpica: uma história sobre a Catira em Uberlândia

Em tempos de globalização é cada vez mais raro presenciar manifestações genuínas de culturas tradicionais. Na busca por serem “globais” pessoas expõem suas “aldeias” e, os olhos do mundo têm se voltado para os interiores de diferentes cidades, de diferentes países. Em 2016, uma dança típica brasileira do meio rural, fez parte do maior evento esportivo do mundo, as Olimpíadas. Na rota da tocha pelo país, a Catira em Uberlândia foi um dos destaques.

Durante muitos anos a Catira foi um território predominantemente masculino, felizmente as mulheres têm ocupado este espaço. Um dos exemplos foi o grupo de jovens catireiras, Catira Raízes do Sertão, coordenado por Polyana Faria e Débora Cristina, o grupo foi formado em 2012 pelo produtor cultural Tarcísio Manuvéi, a partir de um projeto de extensão realizado numa parceria entre a VIOLA DE NÓIS PRODUÇÕES e Universidade Federal de Uberlândia(UFU).

Raízes do Sertão, foi referência na cidade durante os anos em que esteve em atividade. “Com pinceladas de feminilidade, inspiradas pela simplicidade e rudeza dos ipês dos Cerrados, o grupo semeava as sementes da graciosidade caipira no solo sagrado da nossa cultura e, com orgulho, no cumprimento da missão, esparramaram a tradição”, recorda Polyana. Porque, em Uberlândia a catira era pink e tinha cabelos longos, afirmação da gigante automotiva Nissan, uma das patrocinadoras dos jogos olímpicos. A montadora, através da equipe Vetor, buscou pessoas e projetos de referência no Brasil que dialogassem com a proposta da campanha que daria visibilidade a inciativas “atrevidas”. Não demorou muito para o trabalho desenvolvido com a Catira Raízes do Sertão chamar a atenção da equipe Vetor e, depois de entrevistas e uma maratona de etapas junto ao Comitê Olímpico Brasileiro(COB) os nomes de Tarcísio Manuvéi e Polyana Faria foram aprovados para serem condutores da Tocha Olímpica em sua passagem por Uberlândia.

Foram mais de 1,5 mil histórias “atrevidas” de pessoas que vislumbravam desfilar com o maior símbolo dos Jogos Olímpicos. Com grande alegria, a Catira estava entre as selecionadas: “Rota da Tocha – A Catira em Uberlândia”. Tarcísio e Polyana representavam o Grupo de Catira Raízes do Sertão, cuja a história encantou por sua raiz cultural e pelo trabalho de difusão entre os jovens. Os produtores da Viola de Nóis Produções, conduziram com orgulho a Tocha que rodou o Brasil, movimentando o país em 2016.

Os pesquisadores envolvidos no processo de seleção dos condutores da Tocha enxergaram que devido a dança ser considerada uma das manifestações sociais mais antigas, as danças populares têm um papel fundamental na hora de contar a história de um povo.

OS MESTRES

A catira é cativante. Basta ouvir o recortado da viola e as palmas e batidas dos pés dos catireiros para se emocionar. Em Uberaba (MG), encontramos o senhor Vinícius Teles, ou Vinícius Violeiro, 72 anos, 59 deles dedicados à catira. “É algo que meu avô passou para o meu pai e meu pai, o saudoso Manoel Teles, passou para meus dois irmãos e eu. Danço, canto e até componho para a catira e te digo que é um amor sem tamanho e farei isso até Deus me chamar”, afirmou o simpático e bem-disposto catireiro.

Vinícius Teles é parte da história viva da catira na região do Triângulo Mineiro. No final de setembro perdeu um grande amigo, o senhor Romeu Borges, Mestre de Catira, arte na qual ingressou aos 8 anos de idade, outro que dedicou praticamente uma vida à catira. “Pelo menos fica a lembrança e os ensinamentos de todos que se foram, fazer a festa lá em cima e é muito importante esse pessoal mais novo, preocupado em viajar para longe e ir até para o espaço, ver um pouco do que temos aqui, bem perto, e valorizar isso. A catira é a coisa mais linda que já vi”, disse Vinícius que é professor de catira dos mais procurados da região.

Hoje ele não dança tanto, dedica mais tempo a tocar e compor. Os filhos não herdaram essa paixão do pai. Porém, o senhor Vinícius não se preocupa com isso. “Não adianta forçar só porque é da família. A paixão pela catira parece já nasce com a gente”, comenta ele que formou na juventude o grupo de catira Revelação Uberaba e atualmente segue no grupo criado pelo pai, o Catira Raiz.

Vinícius Violeiro foi ele o primeiro professor do Grupo de Catira Raízes do Sertão. Ele trouxe ao grupo uberlandense iniciante seu inestimável conhecimento. Isso é o que podemos chamar de começar com o pé direito. Cada grupo de catira tem suas particularidades e os ensinamentos de Vinícius Violeiro ajudaram a moldar o Raízes do Sertão. Outro mestre do grupo foi o senhor Romeu Borges, que durante a produção deste texto não estava bem de saúde, e despediu-se desta vida no mês de setembro. Ele, que dividiu o palco com a bailarina brasileira mais conhecida no mundo, Ana Botafogo, trouxe para o grupo uberlandense lições que nenhum livro guarda. Essa convivência foi enriquecida a cada ensaio, a cada apresentação.
Vítima de complicações de uma pneumonia Romeu Borges, ou Seo Romeuzinho, como era carinhosamente chamado por amigos e admiradores, faleceu aos 85 anos e com sua partida a catira perdeu um de seus principais divulgadores.

Seo Romeuzinho, mais do que ninguém, ensinou que a espontaneidade e destreza devem ser sempre valorizadas na catira, em todas as coreografias. Ele foi um dos fundadores da Catira dos Borges, lá em 1940 e enquanto tinha saúde divulgava essa arte onde quer que fosse. Não hesitou em aceitar o convite do “Fantástico” (Globo) para se apresentar no Teatro Municipal do Rio de Janeiro ao lado de Ana Botafogo e novamente angariou novos e milhões de admiradores para a catira.

O Grupo de Catira Raízes do Sertão sempre teve uma admiração explícita por Senhor Romeu e por sua alegria. Ele sempre agraciava o grupo com seus ensinamentos sobre catira e com um sorriso que estará sempre na memória de todos que o conheceram.

E graças a mestres como estes o Grupo de Catira Raízes do Sertão foi longe… chegou na capital paulista para gravar o programa “Viola, Minha Viola”, na TV Cultura, sob o comando da saudosa Inezita Barroso. Foi o único grupo feminino de catira a se apresentar no programa que teve somente mais uma edição com Inezita.

ACOLHIMENTO

Pelo Raízes do Sertão passaram cerca de 15 jovens entre homens e mulheres e um dos destaques foi Debora Cristina, que lembra com carinho dos tempos de Raízes do Sertão. “Foi muito marcante pra mim porque a catira foi algo que descobri sozinha, um interesse meu. Não tenho tradição familiar nessa cultura”, conta ela que começou a dançar catira aos 13 anos, coincidentemente a idade que tinha o senhor Vinícius Teles também no início.
O que mais marcou Débora foi perceber o quanto as famílias de catireiros amam essa arte e muitas vezes a levam adiante em troca de nada. “A catira não é só uma dança de exposição, é uma troca. Antes era dançada para comemorar grandes colheitas, para trocas de alimentos nas fazendas onde às vezes nem se falava a mesma língua mas por meio da catira se entendiam. Até hoje temos grandes mestres para reverenciar aqui”, disse ela que lembra ainda como aprendeu com Wosley Torquato, representante de três grupos de catira na região. “Ele e todos do grupo me receberam muito bem, me senti como se fosse da família”, recorda.

Wosley Torquato e o Grupo Catira Tradição de Minas também foram peças fundamentais para a bela trajetória do Raízes do Sertão. Mestre Torquato é um admirador do trabalho da Viola de Nóis na divulgação e preservação da cultura caipira, mas esse assunto é para um outra hora…

De pai para filho ou não, a catira persiste e segue seu caminho divulgando cada vez mais a cultura caipira.

Por Adreana Oliveira, Ilustração por Alexandre França produzido para Viola de Nóis Produções.

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