Viola de Nóis Produções 10 anos – Parte X

Viola de Nóis Produções 10 anos – Parte X

Tradição e inovação pela difusão da viola caipira no século XXI

Chegamos ao final dessa série comemorativa dos 10 anos da VIOLA DE NÓIS PRODUÇÕES com uma certeza: ainda há muito o que explorar na nova década que se inicia para a produtora. Em algumas conversas com grandes nomes da viola da atualidade descobrimos que tradição e inovação caminham juntas nessa jornada de redescoberta das possibilidades desse instrumento que permeia a cultura caipira.

Nesses dez anos a produtora tem sido como um catalisador de talentos espalhados por todo o Brasil, um ponto de encontro onde se discute, se estuda e se divulga a viola que no século XXI deve conquistar cada vez mais espaço na cultura mundial. Para isso é preciso dar sequência ao trabalho nas frentes de educação e promoção sem deixar as raízes de lado.

Idealizador do projeto “Moda de Rock“, ao lado de Zé HelderRicardo Vignini violeiro instrumentista de São Paulo é um dos pioneiros na utilização da viola, instrumento típico da cultura caipira, junto ao bom e velho rock and roll. Em 2018 faz 20 anos que ele começou a tocar viola depois de já ser profissional na guitarra. Ao todo são 28 anos de carreira. Mas não foi fácil no início.

“Quando eu comecei a tocar não tinha nem jogo de corda para viola, não se tinha escola direito para lecionar, era bem diferente. Essa inserção da viola no rock que começou como uma brincadeira vejo que tem seu mérito em levar a viola para quem não conhecia o instrumento”, disse ele que já se apresentou com Lenine no palco do Rock in Rio, usando a viola.

“A viola mudou muito e vejo algo muito interessante acontecendo agora. Está surgindo uma vertente de violeiros que usam efeitos, que tocam com uma outra linguagem e isso também está chegando em Portugal, um país muito calcado nas tradições”, explicou.

O violeiro Renato Caetano, da capital mineira, apesar da agenda cheia está sempre disposto a falar sobre sua arte. “Ainda mais se for a pedido do Manuvéi e da Polyana”, diz ele referindo-se aos dois produtores da Viola de Nóis, Tarcísio Manuvéi e Polyana Faria, a quem muito admira e destaca o trabalho feito pela promoção da viola caipira. “Temos que parabenizá-los por esse trabalho que eles têm feito na Viola de Nóis, é genial”.

Ele que já se apresentou no Teatro Municipal de Uberlândia em um evento realizado pela produtora trouxe as músicas de seu disco “As dez cordas de Liverpool” no qual toca clássicos dos Beatles. “Meu primeiro contato com a viola foi há uns 20 anos por causa do blues, que eu tocava muito. Foi quando conheci o “Rasta Bonito”, do Almir Sater. Achei lindo demais da conta. Só depois que eu vim conhecer a viola caipira mesmo. Passei a tocar com o meu pai, que tem família de tradição caipira”, recorda.

Para Renato Caetano, a viola sempre teve uma pegada mais da sonoridade, mais de característica que traz o blues e por consequência o rock que é o seu trabalho hoje.

“O que me aproximou da viola num primeiro momento foi a sonoridade, a característica da sonoridade dela e depois que vim conhecer a tradição caipira. E, eu vejo o mercado da viola hoje com alegria, porque além de ter muita gente mantendo esse processo de viola caipira como os pagodes do Tião, por exemplo, tem uma galera inovando fazendo coisas muito bonitas, uma meninada que está chegando com toda força”, disse ele destacando Fernando Sodré e Arnaldo Freitas. “Para mim ele [ Arnaldo Freitas] é uma das almas mais belas da viola que vai do caipira ao erudito”, comentou.

Liberdade de criação

O jovem Arnaldo Freitas, natural de Echaporã, já com uma história consolidada como instrumentista, ao saber do elogio de Caetano ficou emocionado. “Eu, como a maioria dos instrumentistas, olho para meu instrumento sempre na busca da inovação, da perfeição. Eu busco outros horizontes com viola, tanto em termos de repertório de artistas que admiro e me inspiram, quanto em minhas composições”, disse ele.

Seu mais recente disco, “Olhos de Maria”, traz um Arnaldo mais amadurecido. “Com o tempo vamos tocando com mais serenidade. Agora eu me preocupo mais com o que transmito ao tocar do que com a velocidade. Tem sempre aquela nota que precisa respirar e não passar correndo. Percebo que sou cada vez mais reconhecido pelo público e pelos colegas dos quais também sou fã e admirador. É preciso ter foco mesmo quando parece que você está indo contra a maré, com o tempo nosso público estará consolidado”, diz ele referindo-se as peculiaridades que imprimiu à sua identidade, sua arte. Arnaldo conta ainda “que “Os Olhos de Maria” não é um CD de música caipira, é uma conversa muito íntima com o instrumento, um disco para se ouvir no silêncio que traz canções com poucos acordes e muito sentimento.”

Mas, muitas vezes, sair do “território sagrado” da viola caipira não agrada a todos. Segundo Arnaldo é um tema delicado e gera discussões dentro do universo da viola. Alguns defensores do estilo tradicional se confrontam com a juventude, mas a viola é um instrumento musical versátil e tem ganhado proporções técnicas inovadoras. “Eu senti muito isso por conta das minhas influências. Eu ouço Paco de Lucía, mas comecei ouvindo Tião carreiro, Bambico, Zé do Rancho, Renato Andrade e também sou inspirado por Rafael Rabelo, Yamandu Costa, Andrés Segovia, o que consequentemente influencia na minha forma de tocar”, explica.

Freitas, afirma que algumas de suas músicas não têm como serem tocadas da forma tradicional, há um aprimoramento técnico usando mais o polegar, o indicador e o dedo médio. “Tem aqueles que defendem que a viola tem que ser tocada do modo tradicional. Não concordo. Você toca o que quiser na viola. A gente tem vários músicos de outros estilos que vieram para a viola. Gente que veio do rock, do violão clássico, erudito”, disse.

Para o violeiro há uma diferença entre ser um apaixonado pelo universo da música caipira – se identificar com ele, com o toque de viola que te leva para a roça, para o interior – e ser apaixonado pela viola – o instrumento, o som que ele tem – simples assim. “O roqueiro por exemplo quer ouvir o rock ao som da viola, porque ele é apaixonado pelo instrumento, não pelo universo da música caipira”, exemplifica ele reforçando também que “é preciso respeitar o repertório da música caipira que é o pedal da história da viola, o alicerce”.

Como integrante do casting da Viola de Nóis, Arnaldo Freitas vê a produtora como uma das referências em termos de produção para a viola, principalmente, a viola instrumental brasileira. “Têm projetos formidáveis que fizeram com que a viola ganhasse palcos antes destinados somente ao sertanejo universitário, a chamada música de massa. Sou muito orgulhoso por fazer parte dessa equipe que divulga a viola para o Brasil e para o mundo oferecendo possibilidade para trabalharmos, nós que ganhamos a vida no braço da viola”, comentou.

Educação

E como levar a viola cada vez mais longe? A educação é um dos caminhos. Para Paulo Santana, violeiro e professor de viola de Maringá (PR), além do trabalho de produtoras como a Viola de Nóis há muito que o poder público pode fazer em termos de estruturação e provimento do ensino de viola nas escolas públicas, conservatórios e universidades para dar ainda mais popularidade e acesso ao instrumento.

“O mercado é positivo e as perspectivas para os próximos anos também. Percebo um crescente neste segmento desde 2004 quando comecei a tocar viola. Em nossa escola de música aqui em Maringá, 80% dos alunos sempre foi de viola caipira. E, com certeza, sempre há algo a mais que podemos fazer com a ajuda do poder público”, afirmou.

Para Santana a viola é tão popular ou até mais popular que o violão atualmente no Brasil. “Acho que passou da hora de ter curso de viola em todas as universidades, assim como tem de violão”. Muitas pessoas estão interessadas em conhecer o instrumento. É, neste sentido, que a inclusão da viola caipira nos ambientes formais de ensino se faz cada dia mais premente. “Então, porque essa falta de interesse pelo instrumento nas universidades, não é mesmo?”, questiona Paulo.

Em sua tese “Viola Caipira: das práticas populares à escritura da arte”, o violeiro e professor de viola Roberto Corrêa, defende que há um avivamento crescente da viola caipira desde a década de 1960. O instrumento está sendo inserido em vários estilos de música. “Acredito que o movimento da viola caipira é o grande movimento da música brasileira. Geralmente quando falamos em movimento é algo caracterizado por um lugar, mas no caso da viola não, esse crescente vem em todo o território nacional”, afirma Roberto Corrêa do alto de sua experiência de quatro décadas dedicadas à viola.

Doutor em Musicologia pela Escola de Comunicações e Artes – ECA da USP – Universidade de São Paulo, “Roberto Corrêa não é apenas um dos maiores violeiros de todos os tempos; será, talvez, o mais importante estudioso de violas e violeiros”, segundo o jornalista e crítico musical Mauro Dias (1997). Seu trabalho é um verdadeiro exemplo, de que a inserção da viola na academia conta a favor de sua transmissão mundial.

Com 19 discos lançados, Roberto Corrêa realizou recitais em importantes salas de concerto internacionais como o Konzerthaus (Viena), Beijing Concert Hall (Pequim) e Haus der Kulturen der Welt (Berlim), ao todo foram 29 países visitados pelo violeiro. O trabalho de Corrêa, nos demonstra que por mais que as raízes da viola estejam no campo, o seu destino é mundo e, com certeza, a sistematização de seu ensino muito pode contribuir para isso.

Aqueles que querem negar todo esse “movimento”, estão perdendo a oportunidade de expandir seus horizontes e o horizontes do próprio instrumento. Dar lugar e voz à viola é garantir a representatividade que ela já detém, é fomentar a propagação das nossas tradições, mas, mais do que isso é respeitar todos os outros que têm desenvolvido técnicas e estilos musicais plurais a partir da viola, no século XXI.

Pensar fora da caixa

O violeiro Fernando Sodré, de Belo Horizonte (MG), quando o assunto é tradição x inovação, afirma que é necessário que haja um “desaprisionamento” da viola enquanto instrumento, principalmente por parte dos violeiros para sua maior projeção. “A viola carrega o estereótipo do instrumento caipira, da autêntica música raiz que é uma das essências do instrumento. Mas para mim ela é um instrumento como qualquer outro. Tem todas as notas para serem tocadas e o instrumento tem que passear mais por outros gêneros, estar livre”, explicou.

Fernando Sodre afirma que quanto mais o instrumento for abrangendo esses outros caminhos mais a viola vai permanecer, porque isso também dá aceso a um outro tipo de público a outras pessoas. “É a viola dentro do rock, do jazz, do choro, no caipira no que for na música popular brasileira para o instrumento se popularizar mais e as pessoas terem maior conhecimento do que ele é. Quando a pessoa se aprisiona em um estilo vai ficar sempre preso naquele universo carregando este estereótipo, mas quando o instrumento é livre ganha o mundo”, explica.

Para ele este é o caminho que viola tem que trilhar neste século para ter maior amplitude. “Com isso vão surgindo novos violeiros, pessoas criativas que vão levar a viola par outros caminhos que vão chamar a atenção. É claro que os grandes instrumentistas têm um papel considerável com isso na divulgação, como o Almir Sater, Renato Andrade, Zé Coco do Riachão, entre outros que são responsáveis pela popularização do instrumento”, finalizou.

Agradecimento

Eu peço licença, leitor, para agradecer esta oportunidade de conversar com tanta gente interessante e aprender mais sobre essa viola nossa de cada dia de sonoridade tão bela e com tantas perspectivas. Essa série me ensinou muito. Quando cheguei para assistir ao “Mil Violas” no Sabiazinho uma conhecida se aproximou dizendo: “Roqueiro também gosta de viola?”. Confesso que me senti um pouco triste com essa colocação, como se roqueiro fosse um ser limitado. Não é bem assim. E nisso tem mérito esse trabalho da Viola de Nóis aqui em Uberlândia e região porque enxergamos um trabalho sério e competente que sobrevive ano a ano sempre pensando em se superar. Foi um prazer fazer parte dessa história, desses 10 anos.

Por Adreana Oliveira
Jornalista, roqueira e mãe do Nicholas

Produzido para a série “Viola de Nóis Produções: 10 anos”

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